Baú de Idéias

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Sexta-feira, Novembro 18, 2005

ESPELUNCA

Na recepção do hotel havia o seguinte cartaz: "Não acreditamos em espíritos, favor não insistir." Velho, decadente, espelunca, todos adjetivos deste naipe se aplicariam à pocilga, mas era o único da pequena cidade.
Felipe guardou sua pequena mala no armário, e ao fechar a porta viu um vulto no banheiro.
- Maitê! Maitê! Eu vi uma velha ali! Vamos embora daqui, agora!
- Você não viu o cartaz lá? Todo mundo deve achar que vê coisas, não adianta reclamar.
- Não é reclamar não! É ir embora!
- Hahaha... Que bobeira... E embora pra onde? Não tem outro hotel aqui. Você é um cagão, mesmo...
- Eu vou falar com a dona do hotel, vou fechar a conta.

- Olha, eu e minha esposa estamos indo embora, não vamos ficar mais aqui, e a senhora sabe porquê.
- Que esposa? O senhor chegou aqui sozinho!
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Segunda-feira, Setembro 15, 2003

PLANTÃO MÉDICO

Um peso caiu sobre o meu joelho, isto era sexta-feira, e as dores, passando-se as horas, deram em aumentar. Domingo à noite, sem conseguir dormir ou mesmo mover-me, pedi para ser levado ao hospital.

- O senhor tem plano de saúde? (a recepcionista)

- Não, particular mesmo. Quanto está a consulta?

- Com sorriso ou sem?

- Como assim?

- Você quer que o médico sorria pra você, fique te ouvindo, te conforte, etc?

Com sorriso e etcs. era 50% mais caro, e a consulta "normal" já era cara!, eu não tinha tanto dinheiro naquele momento.

Passaram-se alguns minutos e o tal de dr. Fernando abriu a porta e se despediu todo-sorrisos de uma senhora. Pegou minha ficha, olhou, fechou a cara e me chamou, sem me olhar.



# # #
(E minha namorada grilada comigo...)

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Segunda-feira, Setembro 01, 2003

(No Ocidente)

Comecei a achar que eu era Buda.
E em corpo e espírito de Buda, angustiei-me, quis voltar a ser eu.
Não conseguia.
E sofria.
Mas iluminei a mim mesmo, frente ao espelho: "O sofrimento cessa quando cessa o desejo."
Parei de desejar ser eu, ou melhor, ser o outro.
Hoje sou Buda, e vou bem, ou zen, obrigado.

* * *

(No Oriente)

Buda pensou que era eu.
E angustiou-se. Queria ter de volta seu corpo e seu Nirvana. Embora antes acreditasse em reencarnações, já no meu corpo passou a sofrer de minhas dúvidas e do meu materialismo.
E passou a achar que o fim do sofrimento vinha com a realização dos desejos, e não com sua negação.
Queria, sobretudo, voltar a ser Buda. Imaginou-se Buda. Contudo não conseguia, por mais que se concentrasse, ter A iluminação.
Hoje Buda caminha angustiado, pensando que é eu, caminha pelos desertos entre um dia e outro, chutando cactos e retirando os espinhos da carne.

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Quarta-feira, Agosto 27, 2003

ENQUANTO UNS SONHAM, OUTROS MORREM

Deitado ontem, quase dormindo, me veio subitamente a imagem de um corpo, feito em pedaços, na rodovia próxima ao meu trabalho. A imagem da cabeça separada do tronco e aquilo tudo
morto.

Pensei na incrível dor do familiar que lá fosse chamado.

O que era uma pessoa agora carne esfacelada.

Pensei que isto acontece todos os dias, mas mesmo assim não seria bonito escrever sobre isto. Apesar disto eu anotei apenas: "O corpo despedaçado no asfalto".

Hoje pela manhã um funcionário do local que trabalho foi atropelado, lá perto. Está no hospital, dizem que em estado grave.

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Segunda-feira, Agosto 18, 2003

VIDA NONSENSE (II) - histórias verídicas:

(1)
Fui fazer a cesta básica da semana - cervejas, cigarros - e a conta deu R$ 30,85. Na carteira tinha apenas
uma nota de R$ 50. O caixa me perguntou se eu não tinha 85 centavos, que ia ajudar muito. Fui ao carro e
peguei umas moedas.

Facilitou demais o troco: ele me voltou 20 reais: 2 notas de R$ 5 e 10 notas de R$ 1!


(2)
Minha avó entrou no elevador, que tinha apenas um passageiro e era espelhado. ficou olhando, olhando, apontou para o cara e para o reflexo dele e perguntou: - Vocês são gêmeos?

Isso, de óculos.

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Sábado, Agosto 16, 2003

O BUSCADOR

Lia um livro do Paulo Coelho e descobriu que também era uma pessoa que buscava respostas, que sabia que a vida tem um sentido oculto, um mistério alcançável. Era um angustiado, um inquieto, um buscador.
Resolveu chutar o balde, chegou ao patrão e disse:
- Vou-me embora; eu sou um buscador!
O patrão:
- Você é um buscador?
- É!
- Então aproveita e me busca uma Coca na esquina.

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Quarta-feira, Agosto 13, 2003

COBERTOR


São onze horas da noite

Ao deitar me lembro do velho

Quando dele me lembro tenho vontade de matá-lo

Só não o mato porque estou deitado



Estou deitado pois já são onze horas da noite

E onze da noite eu sempre já estou deitado

Pois a esta hora o velho já deitou-me

E quando deito não tenho a vontade de fazer mais nada


A não ser matar o velho

Pois ele deita-me antes da hora que quero

E eu ainda queria estar de pé e fazer outras coisas

Mas o velho acha que já é tarde...
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Terça-feira, Agosto 12, 2003

O QUE ESTÁ ACONTECENDO, AGORA?

O que está acontecendo é um cara pensando, ou seja, seu
cérebro vendo o mundo.
O que está acontecendo é este cara pensando tentando
entender o que está acontecendo.
O que está acontecendo é este cara pensando entendendo o
que está acontecendo.
O que está acontecendo é um cara pensando entendendo que
está pensando.
O que está acontecendo é um cara entendendo que pensa o
que está pensando.

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Quarta-feira, Agosto 06, 2003

VIDA NONSENSE (I) - histórias verídicas:

(1)
- Estou com vontade de vomitar...
- Fica tranqüila que isto passa...
- É mesmo! Não conheço ninguém que ficou com vontade de vomitar para sempre...


(2)
- Tou com vontade de chorar muito...
- Chora mesmo, chora até o estômago doer!
- Amanhã meu rosto vai tá inchadaço...e o que dói não é o estômago, nunca chorou não?
- (risos) Então é pq vc nunca chorou demaaais... ou então porque quando eu choro eu bebo muito, aí dói o estômago...

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Segunda-feira, Agosto 04, 2003

A VERDADEIRA VERDADE

Não posso partir, quando começo a pensar em qualquer assunto, em tentar descobrir as razões para a conclusão que quero chegar. Não posso partir do princípio de que "eu acho isto", e buscar os porquês, não posso pensar de trás para frente. Não posso fazer isto porque acabaria vendo apenas os caminhos que me levariam à conclusão que desejo, e isto pode excluir caminhos de pensamento que me levem à Verdade (considerando-se que existe uma Verdade, mesmo que esta seja intermediária entre os dois tipos de respostas que inicialmente coloco como possíveis). Se quero chegar à uma verdade devo partir dos dados concretos, consolidados, da realidade, e também das possibilidades, do real e do que pode ser real, e tentar encontrar todas as possíveis conseqüências e hipóteses a partir destes dados.

O que leva o indivíduo que pensa a, às vezes, colocar-se a pensar desta forma "errada"? Possivelmente, a sua motivação, consciente ou não. Empiricamente podemos observar que se conversamos com um interlocutor que não gostamos, há uma tendência maior de discordarmos de suas idéias do que se conversássemos com uma pessoa na qual estamos apaixonado. Outra motivação pode ser a moral vigente. Nos religiosos praticantes é mais comum de se notar este fato: eles podem partir das conclusões taxativas do que devem e não devem fazer (e geralmente são mais "nãos", proibições, do que permissões), podem partir das conclusões para as explicações, que boa parte das vezes são absurdas sob a ótica da Filosofia e da Lógica. Como já escrevi acima, estes exemplos são empíricos: não vi nenhum "estudo científico" que comprove os dados que citei, mas o fato de usar estes exemplos também serve para ilustrar o que quero dizer.

Se existe um filósofo que tivesse chegado às verdades fundamentais, e resolvesse escrever um livro, e nesse livro ele escrevesse o que é realmente importante, o que é realmente importante, este livro chegaria então em branco às livrarias, pois quem já chegou à Verdade, sabe que é isto, a vida, a morte, o mundo, tudo: nada realmente importa! Mas existe este filósofo honesto? Existe! E onde estão seus livros, sua obra? Ora, mas não acabei de te dizer que o livro estaria em branco!? Que editor publicaria um livro assim, intitulado "A Verdade" e com as páginas em branco? E veja bem, se o filósofo chegou realmente à conclusão que nada é importante, porque se importaria em escrever um livro, porque se importaria mesmo em dizer para alguém o que ele descobriu? Nada importa, quando eles descobrem isto, nada é nada mesmo, ou seja, tudo! Tudo não tem importância nenhuma, nenhuma, a vida, a morte, blá-blá-blá tudo o mundo o universo, as plantinhas Deus o resultado do jogo de futebol comer aquela mulher a reencarnação, a reeleição. Tudo, nada. É por isto que este livro não existe e nunca vai existir. Quero dizer: se eu quiser, posso agir como todos, e ser um impostor: descubro a Verdade, essa verdade. Mas se eu não publicar, como vou vender, ganhar dinheiro, sobreviver? Então amanhã eu poderia lançar um livro chamado "A verdade", com as páginas em branco. Aquela história que eu te disse lá em cima, de que nenhum editor publicaria, não é verdade. Já existem livros totalmente em branco, só que tem outros títulos. É um ótimo negócio: não gasta-se dinheiro com tinta de impressão, cria-se um pequeno escândalo literário, o autor é chamado para uma entrevista no talk-show da meia noite, seus quinze minutos de fama, onde poderia dizer frases vazias, mas de efeito ( exemplo: "A página em branco exige um ritmo próprio de leitura, cada pessoa deve encontrar o seu; quando mais rápido se tentar ler, maior a sua chance de perder algum significado que está nas entrelinhas...") para uma platéia babaca, que não tem coragem de abandonar o vazio alheio e mergulhar no seu próprio. E vende alguns exemplares! Pode acreditar, por mais maluco que isto seja, e as pessoas não usarão o livro como uma agenda um diário, um bloco de rascunhos, mas deixarão na estante, para sempre em branco, como se lá estivesse mesmo a verdade e ela não pudesse ser maculada por uma tinta em suas páginas.

Um filósofo honesto não faria isto. Um filósofo convicto da verdade também não. Percebe a diferença entre os dois? O honesto acha que chegou à verdade. Mas sua razão é, na verdade, fé, pois ele acredita em algo que não é verdade. Se um filósofo acredita fortemente que com a razão pode provar a vida após a morte e outro "prova" que não existe vida após a morte, um (ou os dois !) está errado, certo? E está acreditando no erro, ou seja, não é razão , é fé! O convicto, aliás, não vou dizer nem esta palavra, mas o que realmente, REALMENTE, encontrou a Verdade é o que integrou tudo, a razão, a alma, o presente e o passado, e chegou à Verdadeira Verdade!

O convicto, se sabe que nada importa, não escreveria por convicção (é, eu disse que não usaria mais este termo, ou seja, chamá-los de "convictos", mas que importa se voltei a usar o termo? Nada importa! ). Nada importa! Nem mesmo ganhar o dinheiro para sobreviver... Vender, ganhar dinheiro, sobreviver... Tudo não tem importância nenhuma, nenhuma, a vida, a morte, blá-blá-blá tudo o mundo o universo, as plantinhas Deus o resultado do jogo de futebol comer aquela mulher a reencarnação, a reeleição. Tudo, nada.

O honesto por... Peraí, mas o honesto não tem que ser convicto? A honestidade não é convicção, fé? Sim, então está já explicado.

Então, me diga uma coisa, se você ( eu ) sabe que a verdade existe, a Verdade Verdadeira existe, e está aqui me explicando isto...

Sim, sabichão!

Eu sou um filósofo desonesto!

Ou eu não sei a Verdade Verdadeira!

Ou a Verdade Verdadeira não existe.

Ou ela existe, e é esta mesmo, que nada importa, e eu quero te confundir, te irritar só por irritar, sem pensar nas conseqüências, em coisa ou objetivo nenhum... Mas porque eu faria isto? Mas meu bem, você ainda não entendeu!? Se nada importa, o que me importa fazer coisas que nada me importam??? Nada!! Há há há... Idiota.

Ou eu estou muito assustado com minha descoberta e estou fazendo uma última tentativa, desesperada, totalmente desesperada, me ajude, para não ser sugado por ela, ainda querendo aqui achar um último, um resquício qualquer, um fiapo de esperança de que exista qualquer significado no Universo. É obvio também que se eu descobri a verdade, mas não acredito nela, é porque então ela ainda não é plenamente convicção, conformação.... Me ajuda, me ajuda, eu preciso de motivos, de explicações, de significados!!!!

Nenhuma das anteriores.

Todas as anteriores (mas professor, todas as anteriores inclui "nenhuma das anteriores"?
"- Nenhuma das anteriores?... Hum... Responda, depois veremos isto, se a questão for anulada todos ganham o ponto, independente da resposta).

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Sexta-feira, Agosto 01, 2003

TEM GENTE QUE MACHUCA A GENTE...

(Isto é a música "nova" da Legião Urbana.) E tem gente que não leu o blog-teste que eu tinha feito em maio. Por isto vou colocar umas coisas dele aqui, para não ficarem vagando pelo ar.

3 poeminhas (escritos separadamente, mas que lado-a-lado fazem sentido, um sentido obscuro, claro):


I
Quem poderá provar
Que não é a cama que faz os sonhos?


II
Como é que
quem sobe uma escada
em uma sala escura
sabe que sobe?


III
Com seus desejos
As pessoas
É que corrompem o Diabo

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CHÁ DE CASA NOVA (Aceito móveis novos - lista em anexo)

No "Dias Confusos" coloco um texto por dia. Aqui no Baú, quando sobrar algo de lá, guardarei aqui. Então não será necessariamente todos os dias e provavelmente serão ainda piores. De qualquer forma, os dois são filhos meus e mãe é mãe, né, gosta mais de um mesmo! Só não diz de qual para não magoá-los.

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